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 Dia do/a Assistente Social: profissionais do Amazonas na pandemia


  15/05/2020



 

 

A pandemia do novo coronavírus escancarou as mazelas humanas das pessoas em vulnerabilidade social e desassistidas diante de um inimigo invisível como o vírus da Covid-19. Mas por outro lado comprovou a importância de ter profissionais que atuam na assistência social para trabalhar em ações e iniciativas do poder público que garantem mais dignidade aos fragilizados. E hoje, em celebração ao Dia do/a Assistente Social, nesta sexta-feira, dia 15 de maio de 2020, o CRESS do Amazonas apresenta a seguir em formato de entrevistas exemplos de profissionais da área que se dedicam aos/às usuários/as.

 

São os casos dos assistentes sociais Ana Paula Angiole, que é gerente de Proteção Social Especial de Alta Complexidade da Secretaria de Estado de Assistência Social (Seas), e Edney Correa de Souza, que atua como gerente de Políticas de População em Situação de Rua da Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Cidadania (Sejusc). Ambos dividem a coordenação da base de acolhimento provisório para a População em Situação de Rua (PSR) no Centro Educacional de Tempo Integral (CETI) Áurea Pinheiro Braga, no bairro Compensa, na zona oeste de Manaus, que funciona desde o dia 14 de abril.

 

ANA PAULA ANGIOLE (SEAS)

 

 

CRESS/AM - Os trabalhos dos assistentes sociais se tornaram cada vez mais essenciais na pandemia da Covid-19. No caso do acolhimento à População em Situação de Rua, em que você coordena pela Seas, a assistência social tem atuado de que forma na prevenção ao novo coronavírus para esses/as usuários/as?

 

ANA PAULA – A População em Situação de Rua, mediante os que estão no Cadastro Único no Amazonas, são 700 pessoas. E apenas no entorno da Arena (Poliesportiva) Amadeu Teixeira (principal abrigo emergencial de Manaus, localizada na zona centro-sul da capital), quando abrimos no dia 26 de março esse atendimento no local, já tinha em média 250 pessoas. Teve dia que chegou mais de 300 pessoas em situação de rua. Então, a demanda era maior que a oferta disponível e por determinação do Ministério Público do Estado (MP-AM) abrimos este outro espaço para acolhimento também. E aqui no CETI Áurea Braga, temos acolhidos que sofrem uma crise muito forte de abstinência porque são dependentes químicos. Sendo que a maioria são homens e tem alguns que respondem inúmeros processos na Justiça e com os laços familiares totalmente dilacerados ou inexistentes. E um dos grandes problemas da População em Situação de Rua é a dificuldade que eles têm em fazer sua higienização. Então, dentro do acolhimento, trabalhamos a higiene pessoal deles para evitar esse contato maior com a Covid-19, além de orientações sobre a doença, e inibimos as entradas e saídas constantes deles do abrigo.

 

CRESS/AM – O crescimento exponencial de casos confirmados e óbitos pela Covid-19 com o início da transmissão comunitária do vírus no Amazonas, obrigou a mudanças de estratégias ou a implantação de novas estratégias para evitar que a doença atingisse fortemente, justamente, as pessoas em situação de rua, que não têm como praticar o isolamento social para evitar o contágio?

 

ANA PAULA – No Estado, temos 100 pessoas moradoras de rua infectadas com a Covid-19 no mínimo. O grande problema é que essas pessoas não conseguem ter acesso aos serviços de Saúde. Como muitos deles não tem documentação, há dificuldades para conseguir o atendimento médico nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) até mesmo quando vão acompanhados pelos técnicos do abrigo. É importante frisar que o Governo do Estado, através da Seas, fomenta algumas OSCs (Organizações da Sociedade Civil), que continuam desenvolvendo seus trabalhos com as pessoas em situação de rua que não querem serem acolhidas, mas que por meio dessas OSCs estão tendo alimentação, higienização e um olhar mais cuidadoso para que possam estar recebendo as orientações e cuidados necessários para a Covid-19. E nossa estratégia é manter o fluxo no abrigo que já foi pré-estabelecido de atendimento direcionado.

 

CRESS/AM – Por questões econômicas e sociais, a População em Situação de Rua cresceu em todo o País. Em Manaus, o número de abrigos emergenciais é suficiente para essa demanda?

 

ANA PAULA – Para pessoas em situação de rua temos dois abrigos, pelo Governo do Estado, que são a Arena Amadeu Teixeira e o CETI Áurea Braga, além de um serviço que funciona no Centro de Convivência Estadual do Idoso (CECI) da Aparecida, de segunda-feira à segunda-feira, com alimentação, higienização e orientação psicopedagógica com apoio da Prefeitura de Manaus e as OSCs.  Estamos aguardando também a Prefeitura inaugurar seu espaço de acolhimento para a População de Rua para ter outro direcionamento dessa população já que temos vagas limitadas nos abrigos e mais um abrigo deve ser aberto pelo Estado.

 

CRESS/AM – Há também um número suficiente de assistentes sociais trabalhando e dando o suporte para atender essas pessoas sem moradia?

 

ANA PAULA – Sobre a quantidade de profissionais da assistência social, o número seria suficiente se todos estivessem empregados e tivéssemos profissionais preparados para trabalhar em situação de calamidade pública. Porque a nossa formação no Serviço Social, sendo que falo isso porque fui professora universitária do curso, não prepara os profissionais para trabalhar em uma calamidade. Há uma necessidade de uma formação em que o profissional de Serviço Social possa romper o olhar imediato dentro de uma perspectiva teórica e possa fazer essa ponte ente o lido e o vivido para que tenha respostas rápidas e eficazes para desenvolver um atendimento dentro de uma emergência e calamidade.

 

CRESS/AM – Quais riscos os profissionais que trabalham na assistência social têm enfrentado ao lidar com pessoas em vulnerabilidade em meio à pandemia? Estão sendo tomadas medidas de precaução? Que impactos essa pandemia causou nos trabalhos dos assistentes sociais?

 

ANA PAULA – Além de usarmos EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), recebemos treinamentos da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM) e da Secretaria de Estado de Saúde (Susam) em relação ao enfrentamento à Covid-19. Recebemos também treinamento sobre biossegurança da Ajuda Humanitária Médicos Sem Fronteiras sobre a doença, como se prolifera e quais cuidados devemos tomar até mesmo com a questão da nossa higiene e os hábitos diários que devemos adquirir a partir de agora e sobre o uso adequado e manuseio dos EPIs. Em relação aos impactos para os profissionais de Serviço Social, acredito que o maior deles é o de ficar mais atento ao nosso comportamento. Porque às vezes, estamos tão familiarizados com o nosso espaço de trabalho que não temos precauções necessárias, como a higienização das nossas mesas, teclados dos computadores e mãos constantemente e de sentar mantendo um pouco a distância do usuário. Essa pandemia fez termos mais cuidados nos espaços de trabalho e pensar em novas estratégias de trabalho para desenvolver um atendimento adequado dentro do que o nosso Código de Ética estabelece.

 

CRESS/AM – Como a assistência tem trabalhado para que a População em Situação de Rua, com os acolhidos nos abrigos emergenciais consigam após o período da pandemia recuperar seus direitos como cidadãos, como moradia, por exemplo? Que serviços estão sendo oferecidos neste sentido?

 

ANA PAULA – Temos um grande problema em relação a isso porque a maioria da População em Situação de Rua perde os documentos deles. Aqui no CETI Áurea Braga, temos várias pessoas que não têm ou nunca tiraram a Certidão de Nascimento. Então, a Sejusc que tem se organizado para poder emitirmos no abrigo essas documentações para os acolhidos. Fizemos um levantamento de quantos documentos serão necessários retirar, enquanto os acolhidos que tem documentação fizemos o cadastramento deles no auxílio emergencial, do Governo Federal, e alguns até já receberam o benefício e saíram do abrigo devido isso. Sobre moradia, é bom deixar claro que essas pessoas têm famílias, algumas pelo abuso de substâncias romperam esses laços, outras por questões de separação ou desemprego foram para a rua. Temos casos de pessoas no abrigo que foram para a rua e a família não sabe devido terem vergonha da sua situação. Recentemente, famílias foram desalojadas de suas casas onde moravam alugadas porque não conseguiram mais pagar o aluguel e estão em acolhimento em abrigos hoje.

 

 

EDNEY CORREA DE SOUZA (SEJUSC)

 

CRESS/AM – Quantas pessoas em situação de rua já passaram pelo CETI Áurea Braga?

 

EDNEY CORREA – Mais de 150 foram acolhidos. Não se tem um número preciso porque tem muita evasão, mas atualmente temos 110 pessoas (em situação de rua), entre homens, mulheres e crianças, com uma média de idade entre 18 e 59 anos. Estabelecemos um limite para 120 pessoas no abrigo e até 59 anos, por isso não temos idosos aqui, que são encaminhados para a Arena (Poliesportiva) Amadeu Teixeira. Como é uma situação emergencial, procuramos verificar cada situação para atender da melhor forma possível. Usamos a área externa do refeitório e da quadra coberta como dormitórios, com circuladores de ar.

 

CRESS/AM – Como é a rotina com a PSR?

 

EDNEY CORREA – Eles recebem orientações (principalmente, sobre os riscos da Covid-19), tem rodas de conversa, higienização das mãos com lavagem com álcool em gel, cinco refeições por dia, atendimento social e psicológico, além de uma séria de atividades de recreação também. Eles têm TV, sessão de filmes com o cinematerapia e musicoterapia, dominó e baralhos. E tentamos otimizar as habilidades deles, por exemplo, tem um que nos ajudar como cozinheiro e outro como auxiliar de cozinha. Os mantemos ocupados porque se sentem úteis e isso é muito bom. Inclusive, eles mesmos fazem questão de lavar as suas roupas.

 

CRESS/AM – Como funciona o trabalho dos assistentes sociais nesta situação?

 

EDNEY CORREA – Temos parcerias com as OSCs (Organizações da Sociedade Civil), que trabalham com a questão da dependência química. Quando surgem vagas nestas OSCs, perguntamos deles (das pessoas em situação de rua) quem deseja ir e nós encaminhamos e levamos para esse local. A maioria deles é dependente com histórico de uso abusivo de bebidas alcoólicas e drogas, mas apenas uma minoria aceita tratar a dependência em locais como a Fazenda Esperança. Temos ainda muitas dificuldades com alguns acolhidos até por ser um trabalho novo para todo mundo no contexto dessa pandemia.  É um trabalho desafiante para nós como assistentes sociais, mas temos uma boa equipe e que surtem bons resultados no final.

 

CRESS/AM – E as regras de convivência e conduta têm sido obedecidas?

 

EDNEY CORREA – Acontecem evasões em que eles furam as regras e saem sem autorização do abrigo e não voltam mais. Temos as normas que foram acertadas, que são lidas para eles e estão cientes que em uma terceira infração são desacolhidos. Não podemos também ser coniventes com as infrações, falta de respeito e insurreições. Sabemos que cada um tem sua particularidade e tentamos atender da melhor forma possível.

 

CRESS/AM – Já teve casos de Covid-19 no abrigo CETI Áurea Braga?

 

EDNEY CORREA – Não tivemos aqui, mas vieram dois casos de fora do abrigo. Nos sinalizaram e eles foram isolados dos demais acolhidos na parte de cima (do CETI Áurea Braga) por medida de segurança apesar de serem assintomáticos (sem sintomas). Um deles já foi liberado pelo médico após passar o período de transmissão e o outro segue em isolamento. E todos recebem orientações sobre distanciamento social, ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis)  e câncer bucal. Temos duas enfermeiras em períodos distintos do dia e tem atendimento com a psicóloga duas vezes por semana.

 

 

 

Conselho Regional de Serviço Social do Amazonas (CRESS 15ª Região/AM)

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