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  20/11/2019




 

 

 

?Quando se fala que somos minoria, ns no somos. Dados (do IBGE) apontam que somos (pretos ou pardos) 55,8% da populao (brasileira)?. Esta declarao da diretora do Departamento de Gesto do SUAS (DGSUAS) da Secretaria de Estado de Assistncia Social (Seas), a assistente social e militante Paula Siqueira, 36, demonstra que nem sempre quantidade significa ter maior representatividade nos espaos de poder e uma garantia que os direitos sero respeitados.

 

No Brasil, grande parte da populao negra ainda sofre algum tipo de discriminao ou preconceito e segue em desvantagem/desigualdade social, econmica e educacional em relao s classes dominantes. E neste dia 20 de novembro de 2019 quando se comemora em todo o Pas o Dia Nacional da Conscincia Negra, o Conselho Regional de Servio Social do Amazonas (CRESS 15 Regio/AM) revela a histria de lutas de uma profissional da categoria diante do preconceito racial que ela e vrias pessoas no Estado costumam sofrer.

 

?Hoje um dia de resistncia. E para mim, a Conscincia Negra eu me entender como uma mulher negra; qual o meu papel na sociedade; e perceber que quando eu me movimento, estou movimentando uma estrutura social e toda uma comunidade. Tambm preciso ter conscincia que todo dia preciso lutar para ter espao nessa sociedade?, afirmou.

 

Moradora do Careiro Castanho, Paula lidera o movimento ?Promotoras Legais Populares? no municpio, que fica a 88 quilmetros ao sul da capital Manaus, e ainda trabalha localmente com a questo de gnero. ? algo tico mesmo, que ns como assistentes sociais devemos combater (o racismo) e ser antirracista. Precisamos fazer correes no processo histrico, afinal, no que se refere a ocupar espaos de poder, por exemplo, somos apenas 30%. Ento, cada espao que uma mulher negra e pobre ocupa um momento que precisamos parar e refletir: At que ponto avanamos? O que ainda precisa ser construdo??, indagou.

 

E um caso de racismo que surpreendeu Paula foi no ambiente profissional com outros/as assistentes sociais. ?Na minha adolescncia, eu vivi (o racismo) na escola, mas tratei de uma forma bem tranquila dizendo: ?Olha, voc no precisa gostar de mim, mas tem que me respeitar?. E, infelizmente, na fase adulta j trabalhando como assistente social, quando assumi uma secretaria, eu senti da forma mais doda o racismo quando a equipe (de trabalho) no entendia o meu papel ali (em uma posio de chefia)?, relembrou.

 

Por trabalhar na assistncia social, o racismo que mais me incomoda a diretora do DGSUAS no Amazonas o institucionalizado. ?Quando voc se depara com o racismo nos bairros e na escola est lidando com pessoas que no tiveram a mesma formao (no servio social), mas quando voc est em um ambiente institucional onde a premissa o Cdigo de tica e a formao e se depara com outro colega com o mesmo nvel de Ensino Superior te cerceando (por preconceito), fica o questionamento: O quanto ainda precisamos fazer??, disse.

 

No interior do Amazonas, Paula Siqueira afirmou que as mulheres ribeirinhas, principalmente, no tm ainda noes claras sobre as atitudes necessrias para combater males, como o racismo e a discriminao de gnero. ?Essas mulheres das comunidades (ribeirinhas) no se sentem parte (da sociedade) e acham que precisam ficar subjugadas. Mas quando se encontram com outras mulheres, que trabalham com o empoderamento e se posicionam, elas tambm se libertam?, explicou.

 

A desconstruo do racismo estrutural no Brasil um processo demorado e que precisa de referncias para se fortalecer. A responsabilidade do servio social neste caso aumenta e se estende para outras causas nobres. ?Como assistente social, quando atendo meus usurios eles se identificam comigo. Porque quando se trabalha a questo do racismo no vem em um pacote fechado. Ns estamos contra o racismo, o machismo e a homofobia. E a poltica de assistncia uma porta aberta porque , justamente, com os nossos usurios que vamos tratar esse processo da poltica afirmativa?, disse. 

 

Paula tambm acredita que a poltica de cotas para negros/as ingressarem nas Instituies de Ensino Superior deve ser defendida como uma correo histrica e no sofrer crticas at de quem contemplado/a. ?Tem pessoas que pensam que estamos nos fazendo de ?coitadinhos?, mas estamos corrigindo algo que nos foi tirado?, refletiu.

 

Duplamente preconceito

 

Em 2019, o Conjunto CFESS-CRESS lanou a campanha nacional ?Assistentes Sociais no Combate ao Racismo? que trouxe mais visibilidade, gerou alertas e debates sobre os tipos de preconceitos sofridos historicamente pela populao negra no Pas e as lutas de resistncia. Para a diretora do Departamento de Gesto do SUAS (DGSUAS) no Amazonas, Paula Siqueira, a campanha fortalece a representatividade.

 

?Essa foi a primeira campanha que, realmente, me senti parte (de algo maior). Sou assistente social h mais de dez anos e acredito que o CFESS (Conselho Federal de Servio Social) neste momento se tornou plural?, declarou a assistente e militante social.

 

Por ser mulher e negra, Paula revelou que o preconceito redobrado e afirmou ter ficado impactada com uma frase da campanha de enfrentamento ao racismo do CFESS: ?Quem preta e pobre sente primeiro?. ?Como falei antes, o racismo no vem em um pacote fechado e tentam te silenciar quando voc mulher, preta, pobre ou ocupa um espao de poder. Por isso, esse combate (ao racismo e discriminao de gnero e classe social) precisa estar no seu cotidiano?, disse.

 

E outro campo frtil para o racismo mais exacerbado e outras formas de discriminao est nas redes sociais. A diretora do DGSUAS foi uma vtima destes ataques virtuais. ?Antes no percebamos to rpido tudo isso como agora com as mdias sociais. Uma colega pulicou (no Facebook) uma mensagem me chamando de ?macumbeira? como se isso me ofendesse. Era uma colega de formao e que no entende o que intolerncia religiosa, achando que isso serve para ser ofensivo?, afirmou Paula, que utiliza o material fornecido pelo Conjunto CFESS-CRESS da campanha como estratgia para sensibilizar os colegas no ambiente de trabalho.

 

Sobre as lutas que ainda precisam ser travadas no Brasil para a populao negra, a diretora do DGSUAS destaca a necessidade dos movimentos sociais em nvel estadual. ?Vivemos um retrocesso (sobre a questo racial) no Pas, como bem aponta o Conjunto CFESS-CRESS. Estamos muito antenados no que j conquistamos e estamos perdendo. Infelizmente, no estamos mais naquela nsia de vamos conquistar direitos. Mas os movimentos sociais nos fazem olhar essa realidade de forma crtica e se posicionar. No s cobrar, mas fazer parte?, disse a assistente social.

 

Paula Siqueira admitiu que os movimentos sociais fazem um ?trabalho de formiguinha? com as bandeiras defendidas, mas que esto se fortalecendo por parcerias com grandes instituies pblicas, como o Ministrio Pblico Federal (MPF). ?As instituies perceberam a fora que a populao tem e esto se voltando aos movimentos sociais para se sustentar. Porque as polticas pblicas no se fazem dentro de um escritrio, mas nas ruas e nas comunidades?, finalizou.

 

 

 

 

Conselho Regional de Servio Social do Amazonas (CRESS 15 Regio/AM)

Gesto Nada a Temer, Lutar Preciso! ? 2017/2020

Comisso de Comunicao

Diogo Rocha

Assessoria de Comunicao

comunicacao@cress-am.org.br